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A Biblia fala sobre o cuidado que Deus dispensa a Seus filhos e sobre a rebeldia e a prepotência humanas. Deus sabe que somente debaixo de Suas “asas” há segurança. Mas o ser humano, inoculado no Éden com o vírus satânico da autossuficiência, imagina que pode ser feliz e viver seguro longe de seu Criador. Fomos criados por Ele e para Ele. Agostinho expressa essa verdade nas seguintes palavras: “Tu nos fizeste para Ti, e os nossos corações não descansarão enquanto não acharem descanso em Ti.” Tremenda verdade vinda de alguém que viveu dissolutamente até encontrar Jesus e se abrigar sob as “asas” dEle.


A figura da ave protegendo seus filhotes sob as asas pode ser encontrada em várias passagens bíblicas, como Êxodo 19:4; Deuteronômio 32:11, 12; Salmos 17:8; 36:7; 57:1; 61:4 e Mateus 23:37. O Comentário Bíblico Adventista sobre Êxodo 19:4 explica que, assim como a mamãe águia toma o filhote do ninho e o ensina a voar, protegendo-o com a própria vida, também o Senhor tomou Seu povo do cativeiro do Egito para conduzi-lo à terra de Canaã. Sob Suas asas, Yahweh protegeu os hebreus de muitos perigos. No entanto, quando esse mesmo povo, usando o livre-arbítrio com que todo ser humano foi dotado, escolheu sair de debaixo das asas do Criador, teve que arrostar tristes consequências.


Quando eu era criança, tive alguns casais de garninzés (espécie de galinha de pequeno porte). Gostava de brincar com eles e alimentá-los. Certa vez, uma dessas galinhas chocou uma ninhada e pudemos ver sair dos ovos lindas bolinhas de plumas amarelas. Aquela galinha dócil se transformava cada vez que algo ameaçava seus filhotes. Ela eriçava as penas, abria as asas e bastava um piado para que os pintinhos corressem para debaixo dela. Tenho certeza de que ela daria a vida para proteger sua prole. Ali, sob suas penas, havia aconchego e proteção. Se um daqueles pintinhos resolvesse se aventurar fora da área de segurança, seria por sua conta e risco.


Assim ocorre conosco. Aventurando-nos longe de Deus, ficamos fora de Sua proteção, por nossa conta e risco – embora o Senhor, mesmo assim, nunca nos abandone. “Pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às Suas criaturas”, na definição de Fernando Savater. Podemos ver isso claramente na experiência do rei Davi.



A verdade descoberta A ociosidade é um perigo. Já diz a máxima que “mente vazia é oficina de Satanás”. Davi estava no auge de sua prosperidade. O reino estava rico e quase não mais havia desafios para o poderoso rei. O exército travava batalha em Rabá, enquanto o monarca passeava pelos corredores do palácio, numa tarde tranquila, depois da sesta. Aquele que havia enfrentado feras no campo para defender o rebanho; que havia derrotado um gigante filisteu na “raça e na coragem” estava prestes a cair vergonhosamente no pecado, diante de um inimigo inesperado.

É irônico que, em um estudo vestimentas Biblicas, a triste história da queda de Davi começa na literal falta delas”. Do terraço do palácio, Davi se deparou com uma cena da qual deveria ter desviado os olhos prontamente: uma bela moça tomava banho no pátio de sua casa (por ser a casa de um oficial do rei, ficava perto do palácio), alheia ao olhar lascivo do governante. Como era época em que os reis costumavam fazer guerra (Cf 2Sm 11:1), talvez ela não esperasse que algum homem do palácio pudesse vê-la desnuda.


No livro Sexo Não é Problema (Lascívia, Sim), o pastor Joshua Harris deixa claro que a natureza sexual do ser humano foi criada por Deus e que o sexo não é problema. O problema é o pecado que deturpa tudo o que toca. “Uma pessoa ser atraente não é errado; mas despir essa pessoa com seus olhos ou imaginar o que seria tê-la, é. Um pensamento sexual que surge em sua mente não é necessariamente lascívia, mas pode se tornar lascívia rapidamente se for acolhido e alimentado constantemente. Uma excitação sexual no casamento não é pecado, mas pode ser corrompida com a lascívia se não for equilibrada com paciência e limitação”, define Harris.
Na segunda parte do livro, o pastor Harris diz que a “lascívia é mantida viva, e nossas fraquezas são fortalecidas por meio das pequenas provisões que nós lhe oferecemos”. Exemplo: locais tentadores, televisão, jornais e revistas, música, livros, internet, caixa do correio (catálogos de lingerie, propagandas com fotos indecentes, etc.). O autor convida o leitor a identificar os meios pelos quais a lascívia pode alcançá-lo e a erigir “muros” de proteção. Em seguida, Harris mostra como a lascívia alcança moças e rapazes e sugere como ambos os sexos podem se ajudar mutuamente a manter a pureza de pensamentos e atitudes.


“A lascívia obscurece e torce a verdadeira masculinidade e feminilidade de maneira nociva”, diz ele. “Transforma o desejo bom de um homem de conquista em capturae usufruto, bem como todo o desejo bom de uma mulher de ser linda em sedução e manipulação. Geralmente, parece que homens e mulheres são tentados pela lascívia de duas maneiras singulares: os homens são tentados pelos prazeres que a lascívia oferece, enquanto as mulheres são tentadas pelo poder [de controle e manipulação] que a lascívia promete.”


Depois de falar sobre o perigo frequentemente ignorado da lascívia na mídia (que acaba por alimentar o desejo sexual impróprio), Harris apresenta as “estratégias para mudança a longo prazo”, na terceira e última parte do livro. Segundo ele, primeiramente é necessária uma vida de íntima comunhão com Deus para que a pureza que vem do Céu revista nossa vida. Além disso, é preciso fazer um pacto como aquele feito por Jó: “Fiz aliança com meus olhos; como, pois, os fixaria eu numa donzela?” (Jó 31:1).


Harris cita ainda vários textos bíblicos vitais na luta pela pureza, como o Salmo 119:9-11: “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a Tua palavra. De todo o coração Te busquei; não me deixes fugir aos Teus mandamentos. Guardo no coração as Tuas palavras, para não pecar contra Ti.”


Harris finaliza citando Gálatas 6:7-9 e fazendo eco às palavras de Paulo segundo as quais aquilo que semearmos, certamente colheremos. Se semearmos para o Espírito, colheremos pureza e felicidade. Mas se nos alimentamos de impureza, teremos pensamentos e atos correspondentes. Conforme escreveu Thomas Watson: “Um homem piedoso não irá até onde ele pode, para que não vá mais adiante do que ele deve.”


Davi foi adiante e pagou o preço dessa escolha. Conforme relata explicitamente o capítulo 11 de 2 Samuel, o rei tentou encobrir o pecado de adultério com traição e assassinato. Assim é o pecado não confessado do qual não nos arrependemos: ele nos corrói por dentro e nos leva a afundar cada vez mais no erro.


Pesquisadores descobriram que, quando contamos uma história falsa, nossos neurônios se tornam muito mais ativos, particularmente no córtex pré-frontal, o que sugere que a mentira exige inibição e maior controle cognitivo. Porém, um estudo realizado pela Universidade de Ghent, na Bélgica, afirma que a predominância da resposta verdadeira pode ser alterada de acordo com a frequência com que mentimos.


Assim é o pecado: quanto mais é praticado, mais natural se torna. A insistência no erro pode levar àquilo que na Bíblia é chamado de “pecado contra o Espírito Santo”, para o qual não há perdão (Cf. Mc 3:29). Não há perdão por quê? Por que Deus não quer perdoar? Não. O perdão não é alcançado simplesmente porque o pecador se afastou de tal maneira de Deus que não sente mais necessidade de perdão; acostumou-se ao pecado e endureceu o coração (mente) aos apelos do Espírito Santo. A solução para isso? Dar ouvidos à voz de Deus que nos orienta por meio da Bíblia e sussurra à consciência: “Não vá por aí”; “Não faça isso”; “Não diga tais palavras”; “Não olhe para isso”; etc. No caminho inverso ao da desobediência consciente, quanto mais ouvimos e atendemos à voz de Deus, mais sensíveis nos tornamos. “Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hb 4:7).


Felizmente, apesar da enormidade de seu pecado, Davi não endureceu totalmente o coração.


Natã desmascara tudo

Há pessoas que, em lugar de se arrepender e se humilhar, se revoltam quando são disciplinadas pela igreja. Encontramos casos semelhantes na Bíblia e nos escritos de Ellen White. Alguns, ao receber a repreensão de Deus, permitem que o orgulho fale mais alto e endurecem o coração. A disciplina que deveria ser redentiva acaba os afastando ainda mais da única solução para o pecado.


Davi cometeu graves pecados e tentou ocultá-los. No entanto, no ano que se seguiu, ele não teve paz. Afinal, “quem tenta esconder os seus pecados não terá sucesso na vida, mas Deus tem misericórdia de quem confessa os seus pecados e os abandona” (Pv 28:13, NTLH).


Segundo Ellen White, “a censura do profeta [Natã] tocou o coração de Davi; despertou-lhe a consciência; seu crime apareceu em toda a sua enormidade. Seu coração se curvou arrependido diante de Deus. Com lábios trêmulos ele disse: ‘Pequei contra o Senhor’” (Patriarcas e Profetas, p. 722).


Natã foi inspirado e sábio o suficiente para desarmar as defesas de Davi por meio de uma parábola que apelava para o senso de justiça do rei. Como a história dizia respeito a “outra” pessoa, Davi escutou atento. Se o soberano não fosse uma pessoa sincera, poderia ter mandado matar o profeta. Mas não. Confrontado pelo servo de Deus, ele finalmente se deu conta da enormidade de sua culpa e clamou: “Pequei contra o Senhor” (2Sm 12:13).


Segundo C. S. Lewis, a dor é o “megafone de Deus” com o qual Ele procura chegar ao coração das pessoas que, de outra maneira, recusam obedecer-Lhe. Mais importante que todo o reino de Israel; mais importante que reputação e influência; mais importante que qualquer outra coisa é a salvação eterna de uma pessoa. No momento em que Natã conversou com o rei pecador, foi travada uma verdadeira batalha pela salvação dele. E com o arrependimento de Davi veio a garantia: “Também o Senhor te perdoou o teu pecado; não morrerás” (v. 13).


Davi alcançou o perdão, mas teve que enfrentar as tristes consequências de seus atos. Perdeu a autoridade moral para reprimir o pecado em seus domínios e em sua própria casa. Tornou-se vacilante quando deveria erguer a voz contra o mal. E mais: seu primeiro filho da união ilícita com Bate-Seba veio a falecer (mas é bom saber que, anos depois, essa mulher sofredora teve o privilégio de dar à luz o sucessor de Davi).


Quando lhe chegou aos ouvidos a notícia da morte da criança, Davi se levantou, tomou banho, trocou de roupa, ungiu-se e adorou a Deus. Essa sequência de ações ilustra o processo de restauração que Deus promove na vida do arrependido que confessa o pecado: (1) o Senhor levanta o pecador; (2) lava-o da contaminação; (3) troca-lhe a roupa e cobre-lhe com Seu manto de justiça; (4) unge-o com Seu Espírito; e (4) torna-o digno de adorá-Lo.


Uma das principais estratégias de Satanás consiste em levar o ser humano ao pecado e, depois, acusá-lo, dizendo que ele não mais é digno de ir a Deus. Mas é justamente o contrário disso. Quando caímos, então, sim, é que devemos nos voltar para o Senhor. Quando pecamos, então, sim, é que devemos ler a Bíblia em busca de orientação. Quando erramos, então, sim, é que devemos orar e ir à igreja para encontrar consolo.


A grande lição que Davi aprendeu foi esta: “Logo que Satanás consiga separar de Deus a pessoa, única fonte de força, ele procurará despertar os desejos impuros da natureza carnal do homem” (Ellen G. White, Cristo Triunfante [MM 2002], p. 147). Nossa grande luta não é exatamente contra o pecado. O “bom combate” consiste em manter firme nossa comunhão com Deus neste mundo que apela aos nossos sentidos de maneira distorcida; neste mundo que procura abarrotar nossa agenda de compromissos e passatempos, de tal maneira que não nos sobre tempo nem disposição para orar, ler a Bíblia e ir à igreja. O inimigo sabe que, se nos afastar do Pai, o pecado nos derrubará na primeira esquina – ou no primeiro terraço.


Portanto, não dê o primeiro passo para longe das “asas” de Deus. Mas, se cair, volte-se para Ele em arrependimento e confissão sincera (1Jo 1:9). Ele voltará a abrigá-lo sob Suas asas de amor.



Feliz é aquele cujo pecado é coberto No Salmo 32, Davi revela a angústia de viver com um pecado encoberto. Ele sentia a mão de Deus “pesando” sobre ele. Diz que seus ossos envelheceram. Resumindo: não sentia paz e estava morrendo por dentro. A solução veio quando ele confessou o pecado, sem justificá-lo nem transferir a responsabilidade para outro. “Veja bem, Senhor, a culpa foi da mulher. Quem a mandou tomar banho àquela hora do dia bem sob minha vista?” Ou: “A culpa foi do Senhor, que me deu olhos e instinto sexual.” Essa foi mais ou menos a atitude de Adão, mas não a de Davi. Ele simplesmente admitiu e confessou (v. 5). E Deus o perdoou. Cobriu o pecado de Seu filho. Ponto final.


Há quem fique espantado com a simplicidade da coisa. Davi fez o que fez, pediu perdão e pronto? E há outros que se sentem desconfortáveis pelo fato de uma história tão escabrosa constar nas páginas sagradas. Como escreveu Ellen White, “muitos têm murmurado a respeito daquilo que chamam injustiça de Deus ao poupar Davi, cujo crime foi tão grande, após haver Ele rejeitado a Saul pelo que lhes parece ser pecados muito menos flagrantes. Mas Davi se humilhou e confessou seu pecado, ao passo que Saul desprezou a reprovação, e endureceu o coração na impenitência. [...] Quem quer que, sob a reprovação de Deus, humilhar o coração com arrependimento e confissão, como fez Davi, pode estar certo de que haverá esperança para ele. Quem quer que com fé aceitar as promessas de Deus, encontrará perdão. O Senhor nunca lançará fora uma pessoa verdadeiramente arrependida” (Patriarcas e Profetas, p. 726).



Mais alvo que a neve

No Salmo 32, a ênfase está nas vestimentas com as quais Deus cobre o pecador. No Salmo 51 (no qual Davi também trabalha com o tema do arrependimento), a ênfase está nos agentes de lavagem e branqueamento usados para limpar as vestes. Nos dois casos, a ideia é a de que a ajuda vem de Deus, não de nós. As roupas brancas nos são dadas por Deus, num processo teologicamente chamado de justiça imputada (ou atribuída).


Curiosamente, a planta usada na purificação – hissopo – tinha propriedades medicinais, remetendo à ideia de cura. O hissopo é bastante similar em aparência a outros membros da família da menta, além de também ter propriedade expectorante. A planta e seu óleo volátil possuem aroma forte parecido com o odor característico da cânfora. Lembro-me de que meu pai, ex-jogador profissional de futebol, frequentemente usava álcool com cânfora para amenizar a dor muscular de contusões. E tem mais: um estudo demonstrou que extratos da folha seca da Hyssopusofficinalis (hissopo) exibem atividade antiviral forte contra o vírus HIV, provavelmente devido ao ácido cafeico, aos taninos e à presença de compostos de peso molecular alto não identificados.


Resumindo: o hissopo e as plantas da sua família têm propriedades medicinais impressionantes. Mas não chegam aos pés da capacidade curadora de Deus, que toma o pecador manchado pela culpa e o torna mais alvo do que a neve. E Deus faz mais: Ele não apenas cura e purifica; Ele nos dá um novo coração, um coração puro, conforme o Salmo 51:10. Assim, a mente é transformada. Os pensamentos se tornam puros e corretos. O homem pode olhar para as mulheres não mais como objetos, mas como dignas criaturas de Deus. A mentira não mais tem espaço na vida. O orgulho e a vaidade são banidos. Deus passa a efetuar em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Fl 2:13).


Toda oração por arrependimento deveria conter também o pedido pela renovação do coração/mente.

No abrigo de Suas asas No Salmo 61:4, Davi orou: “Para sempre anseio habitar na Tua tenda e refugiar-me no abrigo das Tuas asas” (NVI). Ele aprendeu a lição da permanência. De nada vale nos arrependermos, pedirmos perdão e voltarmos à velha prática dos pecados. Nossa única esperança de vitória consiste em habitar na “tenda” de Deus e nos refugiarmos sob Suas “asas” para sempre. Nunca devemos soltar a mão do Pai – essa é a principal lição.


“A história de Davi não fornece defesa ao pecado. Era quando ele andava no conselho de Deus que era chamado homem segundo o coração de Deus. Pecando, isso cessou de ser verdade com relação a ele, até que, pelo arrependimento voltasse ao Senhor. [...]

Embora Davi se arrependesse de seu pecado e fosse perdoado e aceito pelo Senhor, colheu os resultados da semente que ele próprio semeara. Os juízos sobre ele e sua casa testificam da aversão de Deus ao pecado” (Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, p. 723).
Nunca se esqueça disto: Deus odeia o pecado, mas ama o pecador de maneira tal que jamais compreenderemos. A história de Davi deixa isso claro, com cores bem vivas.


Michelson BorgesEditar

Jornalista, mestre em Teologia
Editor de livros na Casa Publicadora Brasileira

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