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Guilherme SilvaEditar

Introdução Ninguém consegue entrar duas vezes no mesmo rio. Assim como as águas serão outras, nós também o seremos. Essa constatação do antigo pensador Heráclito, de Éfeso, destaca a transitoriedade da vida, o contínuo fluxo que marca a experiência humana. Em meio ao turbilhão da existência, é possível saber onde nasce essa torrente e onde ela irá desembocar? Ou seria a vida como um rio sem nascente e sem foz, que sai do nada e jamais alcança um destino? Como chegamos a ser o que somos? E o que podemos fazer a partir do que nos tornamos?


Na revelação bíblica, o drama da existência humana é analisado desde sua origem, passando pelo que hoje somos e apontando para o que podemos ser. É uma história de glória, queda e restauração. De modo semelhante às ruínas de um antigo palácio soterrado nas areia do deserto, o ser humano atual é aquilo que sobrou da tragédia que se abateu sobre a humanidade criada por Deus. Mas a obra de restauração divina traz às ruínas sua antiga glória. Isso é o que estudaremos a seguir.



A imagem de Deus A vida surge da Vida. O humano nasce do divino: não por acaso, nem por acidente, mas pelo propósito soberano do Deus criador. “Criou Deus, pois, o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:27). A Bíblia revela que a obra da criação foi um evento espetacular. A criação do gênero humano, sua coroação. Os animais foram feitos segundo sua espécie. O ser humano foi criado segundo a imagem divina.


Porém, olhando para a grandiosidade de Deus e para nossa condição limitada, como podemos entender a divina imagem na humanidade? Essa também é a interrogação do salmista: “Quando contemplo os Teus céus, obra dos Teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele Te importes? E o filho do homem, para que com ele Te preocupes?” (Sl 8:3 e 4, NVI). Apesar da disparidade entre o Criador e a criatura, o salmista destaca a relevância da humanidade para Deus: “Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais1 e o coroaste de glória e de honra” (Sl 8:5, NVI).


No Antigo Oriente Médio, era comum que o soberano fosse considerado a imagem da divindade criadora. O faraó egípcio é por vezes mencionado como a imagem do deus Rá. Na Mesopotâmia, o rei era considerado a imagem do deus Marduque, entre outros deuses. O governante supremo seria um representante especial da divindade na Terra, diferente e superior aos demais seres humanos.2


O relato de Gênesis rompe a linha divisória que separa o soberano do povo. A imagem de Deus não é característica especial do governante, mas de toda a humanidade, de homens e mulheres. Considerado o ponto mais alto da criação terrestre, todo o gênero humano recebeu de Deus o domínio3 sobre as criaturas inferiores, tornando-se o administrador responsável pela recente obra divina (Sl 8:7, 8). Autoridade e responsabilidade foram concedidas a todo ser humano. Portanto, todos também compartilham os mesmos deveres de zelar pela criação divina e os mesmos direitos de ter acesso aos bens disponíveis na natureza. Dessa forma, entre Adão e Eva não havia guerra entre sexos, nem a subjugação de um pelo outro. Reinava harmonia enquanto se reconheciam mutuamente como depositários da imagem de Deus, com seus privilégios e responsabilidades. Por isso, podiam se relacionar como se fossem um, sem máscaras, sem disfarces, sem véus (Gn 2:25).


Como representante da criação, foi dado à humanidade não apenas o domínio, mas também a capacidade de se relacionar entre si e com o Criador. Fomos criados por Ele e para Ele (Cl 1:16). Por meio de um relacionamento afetuoso, a Terra estaria ligada ao Céu, e a vida, conectada ao seu propósito original. “Para entender o homem precisamos entendê-lo no seu relacionamento com Deus.”4 Na realidade, “todo esforço de entender o homem à parte do Criador em cuja imagem ele foi criado significa abandonar toda esperança de jamais encontrar o sentido de sua vida”5. O essencial para o ser humano como “imagem de Deus” é ouvir o Criador e falar com Ele.


Por meio do relacionamento direto com Deus e com os seres celestiais, a vida humana seria um processo contínuo de aprimoramento e descoberta, sem paralisação nem retrocesso, sem vazios existenciais. Adão e Eva não eram apenas “filhos sob o cuidado paternal de Deus, mas estudantes a receber instrução do Criador todo-sabedoria. Eram visitados pelos anjos, e lhes era concedida comunhão com seu Criador, sem nenhum véu protetor de separação. Estavam cheios do vigor comunicado pela árvore da vida, e sua capacidade intelectual era apenas pouco menor do que a dos anjos”6


Experimentando um relacionamento harmonioso com Deus, com o próximo, consigo mesmos e com toda a criação, o homem e a mulher habitavam o Éden, o jardim de “delícia”, em seu significado original7. A delícia da vida se revelava na capacidade de cumprir deveres que não eram penosos e desfrutar prazeres não destrutivos. Em perfeito equilíbrio, tudo o que Deus havia criado era “muito bom” (Gn 1:31).



Imagem corrompida Entre todas as delícias do paraíso, apenas uma estava proibida. Deus a intitulou de árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 3:3). Em seu fruto estava embutida a associação entre o prazer e a dor. Entre suas contraindicações estava o conhecimento que, em vez de libertar, escraviza. Assim como para os seres celestiais, para a humanidade o mal também existia como possibilidade de escolha. Comer o fruto proibido não era uma travessura sem consequência. Era a decisão consciente de ingerir as sementes do mal.


O que estava em jogo não era a preservação dos frutos de uma árvore, mas a seriedade da orientação de Deus e a fidelidade do coração humano. “A essência primordial do pecado não é a magnitude de um ato errado. Pecado é, essencialmente, a criatura querendo ser independente do Criador. É a recusa do pecador em se submeter à autoridade divina, quer a rebelião seja em escala cósmica, quer meramente dentro de um coração. O pecado de anjos e seres humanos se resume na mesma coisa: obstinação em se submeter a nenhum outro deus senão a si mesmo. O moderno humanismo retrata o problema básico do ser humano pecador.”8


O ato voluntário de Adão, como representante da humanidade, introduziu no mundo o vírus do pecado, contaminou a criação divina e infectou toda a descendência de Adão, tendo como consequência final a morte (Rm 5:12). Nós, como seus descendentes, não somos culpados pelo seu pecado, mas contaminados por ele, de forma ampla e irrestrita. Dessa maneira, podemos dizer que os seres humanos “não nascem corruptos porque são culpados, mas são considerados culpados porque são corruptos”.9


O pecado de Adão cortou a ligação entre o Céu e a Terra. Demonstrando a inimizade entre o coração pecaminoso e o Deus santo, Adão disse: “Ouvi Tua voz [...] e tive medo” (Gn 3:10). Infectados pelo mal, já nascemos apartados de Deus. Esse é o mais dramático efeito do pecado: a separação entre a humanidade e a fonte da vida. “As vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus” (Is 59:2). Desligados da fonte da vida, estamos de fato mortos em nossos “delitos e pecados” (Ef 2:1).


Por isso, o pecado não se limita a ações pecaminosas: é uma condição da qual o homem não escapa por si mesmo. Essa é a razão pela qual as folhas de figueira, usadas no Éden como cobertura para a recém-descoberta nudez, não serviram para remover a vergonha (Gn 3:7). A solução humana apenas evidenciou a realidade da queda. Não trouxe solução.



Imagem restaurada Atualmente, a cultura secular nega a dimensão do pecado, embora seja obrigada a conviver com seus efeitos. “Os pecados se tornaram crime e agora o crime está se tornando uma doença.”10 Atribuindo os problemas humanos apenas a condicionamentos sociais, biológicos e/ou psicológicos, justifica-se o pecado, mas o pecador é deixado sem solução. Com o diagnóstico errado, erra-se também na prescrição.
É preciso conhecer a imagem de Deus na humanidade e, ao mesmo tempo, reconhecer que essa imagem foi completamente arruinada pela condição pecaminosa. O pecado não apagou a imagem de Deus, mas degradou a humanidade em todos os níveis. Quando a Bíblia nos apresenta a nós mesmos como conhecedores do bem, mas escravos do mal (Rm 7:14), nos ajuda a entender quem somos de fato e quem podemos ser. “Diz a Bíblia que você é maravilhoso porque é feito à imagem de Deus e degradado porque, em determinado ponto na história, o ser humano caiu”.11


Se cremos que o homem é bom por natureza, a ilusão distorce a realidade. Se vemos apenas a maldade humana, a desilusão soterra a esperança. “O conhecimento de Deus sem o da própria miséria faz o orgulho. O conhecimento da própria miséria sem o de Deus faz o desespero. O conhecimento de Jesus Cristo acha-se no meio, porque nEle encontramos Deus e a nossa miséria.”12


Somente em Cristo há saída para a contradição que nos faz oscilar entre a dor e o prazer, o medo e a esperança. Na cruz de Cristo se cumpre a justiça da lei e se revela o incomparável amor divino, na medida em que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões” (2Co 5:19). Como ponte sobre o abismo, Cristo revela a distância intransponível que nos separa de Deus e nos concede novamente o acesso à presença do Pai.


Diferentemente das vestes de figueira, que apenas revelaram a vergonha humana, no Éden, as vestes de pele dadas por Deus ao primeiro casal (Gn 3:21) revelam a provisão divina como solução exclusiva para a condição pecaminosa.


Portanto, como pecadores nossa preocupação não deve ser a de tentar cobrir com nossas pretensas qualidades a vergonha de nossa nudez espiritual. De fato, é necessário reconhecer nossa miséria, pobreza e nudez, sem justificativas e desculpas, sem minimizar o poder letal de nossa enfermidade. Então, seremos cobertos, enriquecidos e curados pela justiça de Cristo (Pv 28:13).


Deus pode usar caminhos surpreendentes para nos ajudar a compreender de forma prática e real a profunda dimensão de Sua graça. “Assim um revés, uma derrota grave, o desabamento de um mundo majestoso pode ser o caminho necessário a um renascimento. Para cada um de nós, um fracasso pode se tornar a oportunidade de uma reviravolta sobre si mesmo e de um encontro pessoal com Deus.”13



Conclusão A humanidade carrega em si a imagem divina, pois sua existência é a obra-prima da criação de Deus.


A queda afasta de Deus a humanidade pela barreira do pecado. Embora a imagem divina não se apague de forma completa, é inteiramente arruinada.


Carregando em si a imagem divina e o poder do pecado, o ser humano só escapa da contradição de sua existência por meio da redenção encontrada em Cristo.



1. O termo hebraico traduzido como “seres celestiais”, na Nova Versão Internacional, é “elohim”. Pode significar “Deus”, “deuses” ou “seres sobrenaturais em geral” (ver Comentário Bíblico Beacon. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p. 127). A Septuaginta, versão do Antigo Testamento para grego koiné, produzida por 72 sábios judeus no período intertestamentário, utiliza o termo “angelos”, significando que o ser humano foi criado um pouco abaixo dos anjos. A mesma interpretação se repete no Novo Testamento (Hb 2:5) e também nos escritos de Ellen G. White.

2. SCHMIDT, Werner H. A Fé do Antigo Testamento. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2004. p. 293

3. O significado de “dominar” pode ser originado de “pisar”, uma ação transformadora como “pisar o lagar” para a preparação do vinho. É uma autorização ao ser humano para fazer transformações úteis. Isso não incluiu o domínio destrutivo e ameaçador ao meio ambiente e às demais criaturas divinas (ver WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2007. p. 251.)

4. FORELL, George W. Ética da Decisão. 8ª ed. São Leopoldo, RS: Sinodal, p. 52.

5. Idem.

6. WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993. p. 50.

7. VELOSO, Mario. O Homem, uma Pessoa Vivente. São Paulo: Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, 1984. p. 59.

8. Holbrook, Frank B. O Sacerdócio Expiatório de Jesus Cristo. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002. p. 72, 73.

9. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3 ed. Campinas, SP: Luz para o caminho, 1994. p. 245.

10. KNIGTH, George R. Sin and Salvation. Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 2008. p. 28.

11. SCHAFFER, Francis. A Morte da Razão. 5 ed. São Paulo: ABU, 1989. p. 21.

12. PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 166.

13. TOURNIER, Paul. Culpa e Graça: uma análise do sentimento de culpa e o ensino do evangelho. 1 ed. São Paulo: ABU, 1985. p. 133.




Guilherme Silva é pastor e jornalista. Atua como editor-associado de livros na Casa Publicadora Brasileira.

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