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Se o leitor dirigir-se ao livro de Romanos, notará que a santificação, como ingrediente natural do processo da salvação executado por Deus, é o assunto do capítulo 6, o texto de estudo presente . O assunto prossegue até 8:17, com uma referência ao resultado natural de nossa filiação divina: somos herdeiros de Deus, co-herdeiros com Cristo, e nos aguarda nada menos que nossa glorificação.

Não devemos supor, todavia, que, ao tratar da santificação, o assunto da justificação pela fé foi deixado de lado. A justificação pela fé é o tema de toda a epístola, e não de apenas parte dela. A presente santificação, tanto quanto a futura glorificação, integram-na. Isso Paulo já deixa entrever em 1:7 quando afirma que os crentes romanos haviam sido chamados por Deus para ser santos, e no capítulo 5 onde ele fala da “atual” glorificação (v. 2, 3, 11). Na estrutura da epístola, justificação pela fé equivale a “meio divino de salvação.”

Paulo emprega a palavra santificação, hagiasmós, duas vezes neste capítulo (v. 19, 22). O termo indica condição e processo. Como processo, a santificação aponta para uma progressiva transformação (ver 2Co 3:18); o cristão avança pelo poder divino e se aprofunda cada vez mais em sua experiência cristã. Como condição, ela define o cristão como santo enquanto o processo se desenvolve. Não há dúvida a esse respeito, pois o apóstolo chama de santos aqueles que estão em Cristo (8:27; 12:13; 15:25, 26, 31; 16:2, 15, só para citar Romanos).

Com base em 2 Coríntios 3:18, notamos que, no processo da santificação, o cristão avança “de glória em glória”, de um estado de santidade para outro ainda mais evoluído. Penso que uma progressiva semelhança com Cristo é o que melhor define o assunto da santificação não somente em Paulo, mas em toda a Bíblia. Esse é o grande ideal de Deus para os fiéis, e em Romanos 6 o apóstolo apresenta os fundamentos do processo, enquanto em 12:1-15:13 ele o expõe em seu aspecto prático.

Assim, a exposição apostólica deixa claro que justificação pela fé não é uma questão de mera aquiescência ao que Deus oferece: “aceito Tua justiça e assunto encerrado”. É antes um compromisso assumido com Cristo de recebermos Sua justiça e vivermos essa justiça, não por nossas forças, mas pelo poder que Ele coloca a nosso dispor, o que finalmente se traduz em termos de Sua própria vida sendo vivida em nós (Gl 2:20). Em que pese o fato de sermos beneficiários passivos de Sua obra salvífica, a experiência da justificação pela fé é tremendamente dinâmica, santificando a vida do cristão.

I. Graça abundante “...Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça ” (Rm 5:20, NVI), é certamente o ponto culminante na argumentação paulina realçando a magnitude da obra de Deus em comparação com a obra do pecado.

O advérbio “onde” não indica apenas espaço, mas abrange qualquer circunstância em que o pecado se faça presente. Não importa o tempo, o local nem outra qualquer situação em que houver um pecador. Por mais perdido que esteja, haverá salvação a seu dispor. Isso, todavia, não contraria certos eventos e condições, como o fechamento da porta da graça (a partir do que não haverá mais salvação disponível), ou o pecado contra o Espírito Santo (para o qual não existe perdão) consumado por aqueles que insistem na incredulidade.

“Transbordou” é a versão de um verbo grego muito significativo: hyperperisseúo. Possivelmente, não havia um verbo que comunicasse de forma mais expressiva o que o apóstolo desejava afirmar. Trata-se do verbo perisseúo, existir em quantidade plena, ser abundante, etc., prefixado com a preposição hypér, sobre, acima de, além de, etc. Transbordar aqui é ocorrer em medida muito mais que suficiente. “Graça”, cháris, é a favorável disposição de Deus para salvar. Esse é, indubitavelmente, um dos mais eloquentes textos da Bíblia que confirmam o amor de Deus e Seu desejo de que todos se salvem. “Não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus. Portanto, convertei-vos e vivei” (Ez 18:32).

Em seguida (Rm 6), Paulo desmonta o argumento antinomista, levantado contra ele por ensinar a doutrina da justificação pela fé. Se lemos esse capítulo com atenção, constatamos pelo menos duas coisas: (1) Paulo afirma que o justificado pela fé detesta o pecado e luta contra ele, isto é, o crente se esforça por fazer a vontade de Deus; e (2) justificação pela fé é o único meio pelo qual se vence o pecado (v. 11, 14, 17, 18). Para tanto, é decisiva a determinação humana conjugada à força divina (v. 12, 13, 19, 22).

Como diz o contexto Bíblico, “não viver sob o domínio do pecado não é o mesmo que não ter que batalhar contra ele. Temos uma batalha diária, momento a momento, para nos manter mortos para o pecado e vivos para Cristo.” E a inspiração também diz: “O pecado pode ser um tirano cruel, que nunca se satisfaz, mas sempre volta desejando mais. Somente pela fé, unicamente buscando as promessas de vitória é que podemos subverter esse senhor inflexível.” E ainda: “Unicamente através da fé podemos ter a vitória que nos é prometida.” É assim que se cresce em santificação.

II. O pecado personificado Para entendermos o que é a personificação do pecado tecida por Paulo em Romanos 6, temos que voltar a atenção ao capítulo 5. No verso 14, ele afirma que a morte reina (o que também significa uma personificação da morte). No verso 17, são os que recebem a graça que reinam em vida; mas então Paulo afirma essa questão de reino e domínio em termos mais definidos: é o pecado, por um lado, e a graça, por outro, que realmente reinam. Assim, tanto pecado como graça são personificados.

A personificação do pecado e da graça indica, todavia, que, em última instância, quem reina é, respectivamente, Satanás ou Deus, cabendo ao homem decidir a que domínio se submeterá (6:12, 13). E é claro que a decisão sendo por Deus, o resultado será vida em todos os sentidos positivos e verdadeiros, tanto agora como na eternidade.

Em Romanos 6–8, em sua abordagem da santificação, Paulo apela aos leitores que se submetam a Deus. Submeter-se ao reino do pecado é dar vazão à natureza carnal, com todas as suas inclinações. Isso tudo caracteriza o domínio do pecado porque resulta em morte, e o pecado reina “pela morte” (5:21). Submeter-se ao reino da graça é resistir aos apelos dessa natureza, dando total soberania ao controle do Espírito de Deus. Isso tudo caracteriza o domínio da graça porque resulta em vida eterna como fruto da justiça, e precisamente a graça reina “pela justiça para a vida eterna” (5:21).

Então, em 6:12, ele interpela os leitores a não permitir que o “pecado reine”. Em Romanos 6, este é o segundo imperativo apostólico (o primeiro vem imediatamente antes), expresso em decorrência do indicativo subtendido no verso 11: os cristãos estão mortos para o pecado e vivos para a justiça, “portanto” não devem permitir o domínio dele. Com efeito, os imperativos divinos sempre são apresentados como provenientes do indicativo, o modo verbal da ação definida, no caso a operação divina em favor do pecador. Nunca Deus requer de nós algo para o que ele já não tenha providenciado um meio de cumprimento.

Pecado é a versão do termo hamartía, o pecado tomado como princípio operativo no mundo. O empenho do apóstolo para que o pecado não reine nos crentes não significa que ele espera que estejam agora isentos do pecado, ou sem presença do pecado. O cristão continua a ser pecador, mesmo porque continua vivendo num “corpo mortal”, como Paulo reconhece.

O ideal, todavia, é que o pecador, uma vez justificado pela fé, não mais peque; mas Deus sabe que a impecabilidade será um traço distintivo do homem somente a partir da volta de Jesus. Por isso é dito: “Estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo” (1Jo 2:1). Pecados ocasionais poderão ocorrer, e de fato ocorrem, na vida do cristão. O que não pode acontecer, entretanto, é que o pecado exerça domínio sobre ele. Este domínio está subentendido na palavra “reine”, e é confirmado na continuação do apelo apostólico.

III. Debaixo da lei? Rm 6:14 é outro texto mal interpretado por aqueles que negam a validade da lei de Deus para o cristão. Para eles, dizer que o cristão não está “debaixo da lei” equivale a dizer que ele não tem a obrigação de guardá-la. Afirmasse Paulo isso, e simplesmente estaria dando força à argumentação de seus adversários que, distorcendo o seu ensino, o caluniavam dizendo que ele incentivava a liberdade para pecar.

Antes de uma consideração ao texto, notemos o seguinte: quando entramos num ônibus, deparamos com uma lei: Proibido Fumar – lei tal, n◦ tal, de tal data, etc. Pergunto: quem é que está debaixo daquela lei? Quem não fuma, ou quem acende um cigarro e começa a fumar? De igual forma pergunto: quem está debaixo da lei de Deus? Quem a obedece ou quem peca? Bem, nesse sentido todos estamos debaixo da lei, pois não há quem “não peque” (Ec 7:20). Essa maneira de entender o texto faz com que Paulo, ao afirmar “não estais debaixo da lei”, estivesse significando “não estais debaixo da condenação da lei”. Nesse caso, Jesus, o único que não transgrediu a lei, nasceu “sob [ou debaixo da lei” (Gl 4:43) exclusivamente porque assumiu nossos pecados, fazendo-Se assim condenado em nosso lugar (3:13).

Embora isso esteja indiretamente envolvido no que o apóstolo disse, não é esse o sentido principal do texto. Por “lei” Paulo se refere ao sistema judaico de salvação, justificação “por obras da lei”, ou através do legalismo. Então, aqueles que estão “debaixo da lei” estão, de qualquer forma, debaixo da condenação da lei, pois o legalismo jamais confere poder para a vitória sobre o pecado. Em contrapartida, Paulo afirma que os verdadeiros cristãos estão debaixo da graça, ou seja, eles foram envolvidos pelo plano salvífico de Deus. Esta é a razão por que o pecado não exerce domínio sobre eles, e eles não são condenados (8:1).

Reforçando o que estou declarando, aqui há uma antítese: estar debaixo da lei (isto é, submetido a um sistema legalista de salvação, o que resulta na própria condenação da lei) X estar debaixo da graça (ou seja, submetido ao plano divino de salvação, o que resulta em obediência a Deus). A primeira situação faz com que o domínio do pecado continue, e o pecador continue condenado. O legalismo jamais salva, mesmo porque, segundo Paulo, a lei, ao ser outorgada, acabou causando o efeito contrário daquilo que poderia ser esperado: ela se tornou a força do pecado (1Co 15:56), incrementando a culpa. A segunda situação, entretanto, faz com que a força do pecado seja quebrada, e o pecador seja empossado da salvação, e assim prossiga até se ver finalmente no reino de Deus.

IV. Dois senhores em guerra No processo da salvação humana está envolvido o grande conflito. Em geral, ao se falar no grande conflito, quase sempre se pensa na rebelião de Satanás contra Deus e a vitória dEste no desfecho da história. Mas não podemos esquecer que o grande conflito nos envolve a todos, e que cada um deverá definir qual posição decidiu: ao lado de Deus, com suas consequências, ou ao lado do inimigo de Deus, também com suas consequências , não há uma terceira posição. Por isso, considera-se a mente humana um campo de batalha desse conflito.

Paulo toca esse ponto ao afirmar que tanto a graça como o pecado intentam o domínio do ser humano; e alguém se deixa dominar em nível de concessão mental. Se alguém submeter sua mente ao domínio de Deus, Este dominará sobre a totalidade do seu ser. O mesmo ocorrerá em relação ao inimigo de Deus. Um endemoninhado não é senão alguém cuja mente está sob o total controle do demônio. Mas não nos enganemos: nem todo endemoninhado se porta como um endemoninhado declarado; essa é uma tática do próprio inimigo. Tem muita gente por aí em são juízo, pelo menos aparentemente, cuja mente está voltada e votada totalmente a ele e a serviço dele. O que não poderá continuar para sempre é uma mente dividida, ora um pouco para Deus, ora outro pouco (senão muito) para o inimigo de Deus. Antes que a porta da graça se feche, cada membro da humanidade terá tomado sua posição.

Sobre Romanos 6:16 nos diz: Quem peca é escravo do pecado. Não há possibilidade de pecar meramente porque decidimos pecar; se a pessoa ainda vive no pecado, é sinal de que ainda não está debaixo da graça, e que, portanto, é escrava do pecado. Isto não significa que o justificado pela fé seja plenamente santo e não peque. Não há nenhum sentido de perfeccionismo absoluto em Paulo. Mas, como estamos vendo, o apóstolo faz seu depoimento contra o antinomismo que nega a necessidade da obediência. Somos livres, mediante a graça, para escolher a quem obedeceremos. Mas a obediência ao senhor escolhido inevitavelmente terá de ocorrer.

No verso 17, Paulo agradece a Deus pelo fato de os cristãos de Roma, antes escravizados pelo pecado, terem abandonado a este e dedicado a vida para obedecer “de coração a forma de doutrina a que [foram] entregues.” O cristianismo é fundamentado, antes de tudo, numa Pessoa. Entretanto, ele possui doutrinas que são, na realidade, a própria expressão dessa Pessoa, a saber, Jesus. Por isso a obediência do cristão é incontestável, e não será apenas uma atitude externa, uma questão de simples comportamento. Ela partirá do coração e envolverá todo o ser, seus pensamentos, palavras e ações; em outras palavras, sua mente está sujeita à direção do Espírito Santo.

V. Fruto para santificação Em Romanos 6:21 e 22, Paulo fala de duas qualidade de fruto, decorrentes das duas espécies de senhores que reivindicam nossa subserviência: um fruto de morte e um fruto de vida. No original grego, o termo fruto é inserido duas vezes, embora a Versão Almeida Revista e Atualizada o registre apenas no verso 22.

O fruto referido no verso 21 se aplica às coisas que os cristãos romanos praticavam antes da conversão, das quais agora se envergonhavam; coisas que, no fim, resultariam em “morte”. Não estar comprometido com a justiça leva a uma colheita inglória e vergonhosa, que acarreta finalmente a morte. Os verdadeiros cristãos se envergonham de seu passado e se horrorizam com a simples ideia de um retorno a ele.

Paulo não relaciona os frutos que antes envergonharam os cristãos romanos, mas podemos supor que seriam as “obras da carne” mencionadas em Gálatas 5:19-21, obras que igualmente resultam em morte (v. 21); a exemplo de Romanos, esta epístola também trata da justificação pela fé.

Se as obras da carne são a qualidade de fruto produzida por aquele que vive no pecado, entendemos que o “fruto para a santificação”, mencionado em seguida e colhido por aqueles que foram “libertados do pecado” e “transformados em servos de Deus”, coincide com o fruto do Espírito, também mencionado em Gálatas 5 (ver os versos 22 e 23). Ao estudar o fruto do Espírito, percebemos como é maravilhoso ter a vida conduzida por esse Ser igualmente maravilhoso.

Termino este comentário com a seguinte nota: a maior tragédia na vida cristã é a suposição de que o cristão é livre para viver o estilo de vida que bem lhe parecer, sem levar em consideração o que Deus espera dele; sem se importar com a ética do que é correto e do que é errado. Esta é a fantasia com que o antinomismo, ou liberalismo, embala a muitos no engano. Ser livre da justiça, entretanto, é ser escravo do pecado, e vice-versa. Não há uma terceira alternativa. O evangelho não torna o homem livre para escolher não ser escravo. Torna-o livre para escolher de quem será escravo, a quem obedecerá (Rm 6:16).Contudo, ser escravo de Cristo é o verdadeiro segredo da liberdade, expressa nos termos da filiação divina (8:15). José Carlos Ramos

Pastor e professor do SALT ora jubilado. Engenheiro Coelho, SP

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